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domingo, 30 de dezembro de 2012

Resenha do livro A língua de Eulália, de Marcos Bagno


RESENHA DO LIVRO “A LÍNGUA DE EULÁLIA: NOVELA SOCIOLINGÜÍSTICA”

Priscila Trevisan

         A obra “A língua de Eulália: novela sociolingüística”, do escritor, professor, tradutor e linguista Marcos Bagno, foi publicada pela primeira vez pela Editora Contexto, em 1997.
           Marcos Bagno conta a história de uma viagem de férias de três amigas (Sílvia, Emília e Vera) à casa de Irene, tia de Vera. Irene é uma linguista e, ao perceber o preconceito linguístico a que incorrem as três mulheres ao ouvirem a fala de Eulália, amiga de Irene, propõe uma reflexão sobre a língua portuguesa. Elas gostam tanto que sugerem ter aulas sobre o assunto durante sua estadia.
         A partir dos diálogos e reflexões das quatros mulheres, o livro explora as diferenças entre o português-padrão (PP) e o português não-padrão (PNP), desvendando mitos e preconceitos linguísticos e propondo uma forma crítica de ensinar a norma-padrão da língua portuguesa sem deixar de valorizar o uso do português não-padrão.
            O livro possui 22 capítulos, e 251 páginas. Os capítulos abordam o cotidiano das férias das moças e as aulas de Irene (que vinha escrevendo um livro sobre as diferenças entre português padrão e não-padrão) com suas convidadas. A cada aula é visto um novo aspecto sobre as diferenças entre as variedades linguísticas. Os capítulos subdividem-se procurando explicar de forma clara e minuciosa variações da língua, embasando-se sócio-historicamente, na lógica e nas próprias regras.
           De início, o livro fala sobre a chegada das moças e sua interação com Irene e Eulália. Em seguida, sobre as aulas que, a princípio, procuram discorrer sobre o mito da unidade linguística, colocando que o português de Portugal e o do Brasil possuem diferenças, entre elas, as variedades geográficas, de gênero, etárias, de nível de instrução, urbanas, rurais etc. e que a língua está em constante movimento, sempre mudando e variando de acordo com o espaço e o tempo.
            Ele procura evidenciar que não há um modo de falar “certo” ou “errado”, mas diferente. Portanto, o PNP, apesar de não se enquadrar à norma-padrão (que chegou a este posto por motivos históricos, econômicos, sociais e culturais), não pode ser considerado errado. Mas, devido ao preconceito linguístico, quanto mais longe o sujeito está da norma-padrão, menos ele é valorizado. Desta maneira, aqueles que não tem acesso à esta norma e trazem consigo uma rica bagagem de PNP (que possui regras e lógica coerentes), podem acabar excluídos, vítimas de preconceito linguístico.
       De acordo com Bagno, o preconceito linguístico surge a partir da evidência das diferenças sociais, quando a língua é utilizada para deixar clara a distância entre classes sociais.
        O livro ilustra que as principais diferenças entre o PP e o PNP são: o primeiro ser artificial, por precisar seguir uma norma-padrão, não havendo flexibilidade; precisar ser adquirido na escola e aprendido, decorado, memorizado, também ser redundante e conservador, demorando a assimilar novidades, tendo uma tradição escrita muito forte.
       Já o PNP é natural, seguindo as tendências da língua. Também é transmitido por gerações e apreendido naturalmente pelos sujeitos. Por tratar de “enxugar os excessos”, o PNP é funcional, eliminando regras desnecessárias, e inovador por se modificar continuamente, além de ter uma tradição oral, sendo mais facilmente apreendida, e familiar. Assim, o ditado da personagem Irene, “A língua voa, a mão se arrasta”, ilustra o quanto o PNP é dinâmico.
          Bagno explica que não é apenas no português que estas variações linguísticas ocorrem, mas em outras línguas, como francês, espanhol e inglês, evidenciando que estas variações não podem ser tratadas como “erros”.
           Entre algumas diferenciações que o livro apresenta, encontra-se o caso da tendência da nossa língua (derivada do latim) em transformar o L dos encontros consonantais em R. Na verdade, como explica o livro, no PNP não existem encontros consonantais com L, originando palavras como broco e pranta.
            Outro caso é a eliminação das marcas redundantes de plural, que mostra o quanto o PNP é uma língua econômica. Ao invés de marcar o plural em várias palavras da frase de forma redundante, como ocorre no PP, o PNP coloca apenas a primeira palavra da frase no plural eliminando redundância sem perder o sentido.
             A personagem Irene explica que na variedade do PNP não existe o som consonantal LH, ocasionando a transformação de LH em I, pela maior proximidade e comodidade em pronunciar o I.
            Em uma das aulas, à noite, as quatro refletem sobre a simplificação das conjugações verbais demonstrando que, enquanto o PP conjuga os verbos de acordo com cada pessoa verbal, o PNP conjuga apenas o verbo da primeira pessoa verbal, enquanto as demais pessoas verbais permanecem com a mesma conjugação (PNP; eu amo, tu ama, ele ama, nós/a gente ama etc.). Confirmando, novamente, sua economia ao eliminar concordâncias redundantes. Assim como a necessidade do ser humano em distinguir-se do outro, do coletivo.
             Mais adiante, é explicado que as transformações de ND em N e MB em M acontecem em decorrência das assimilações. O N e o D são fonemas dentais, ou seja, são produzidos pela língua na mesma região da boca. A assimilação, por sua vez, tenta transformar estes dois sons similares num mesmo som. Assim, o ND acaba sendo pronunciado como N e o MB, como M. O mesmo ocorre com o ditongo EI, transformado em E, quando diante das consoantes J, X e R. Ainda devido à assimilação, no PNP o ditongo OU transforma-se em O ao ser pronunciado, embora continue sendo escrito OU. O autor ainda evidencia que a diferença entre língua escrita e falada ocorre em todas as línguas, em diversos graus de distância entre as formas oral e escrita.
          Em uma das aulas de Irene, as moças refletem que a contração das proparoxítonas (sílaba tônica na antepenúltima sílaba) em paroxítonas (sílaba tônica na penúltima sílaba) é bastante frequente no PNP, para acompanharem o ritmo deste. Assim como a tendência da língua de eliminar o som nasal das vogais após a sílaba tônica faz com que palavras como garagem e homem, sejam faladas garage e home.
             Bagno explica que, em nosso país, alguns arcaísmos são tidos como erros, como é o caso de aquentar, alevantar, ajuntar, assoprar... Mas, na verdade, são heranças muito antigas, que foram conservadas pelas variedades de PNP.
      Abordando as analogias da língua portuguesa, elas podem levar à criação de regularidades ao tentar enquadrar vários fenômenos às mesmas regras, comprovadas eficientes. E também à hipercorreção, quando o sujeito tenta falar mais “corretamente” e acaba “errando”. No PNP, a analogia cria novas formas regulares.
              Ao final, o autor coloca que existem muitas variedades linguísticas não- padrão e para defini-las é preciso levar em conta uma série de fatores. Conclui que a norma-padrão é nada menos que um ideal, e seu uso acaba tornando-se a identidade das classes dominantes e conservadoras, marcando sua diferenciação das classes menos privilegiadas. Os falantes considerados cultos, dominantes desta norma, são sujeitos que tem nível superior completo. Embora em realidade este seja um critério para pesquisas, sendo um dos motivos o seu maior domínio sobre as variedades linguísticas, conseguindo flexibilizar seu uso de acordo com a situação.
         A personagem Irene defende que os gramáticos atuais não refletem os fatores históricos, sociais e culturais da língua, eliminando sua complexidade. Ela ainda ressalta que o PP e o PNP nunca entrarão em consenso, sempre havendo distância entre a tendência conservadora do PP e a inovadora do PNP.
             Irene também propõe que a escola seja um espaço onde se proporcione o máximo de variedades linguísticas para que as pessoas tenham noção de que há um leque de variedades. Não existe um PP e um PNP, mas uma língua única, com a norma-padrão e todas suas variações, sendo que o processo de transformação da língua nunca para, tanto no PP quanto no PNP.
         Em suma, o livro explica que não há um falar “certo” ou “errado”, muito menos um português “universal”, único, mas uma língua repleta de variações com explicação lógica e científica. Variações que, inclusive, existem em diversas outras línguas, com aspectos que são, em realidade, arcaísmos. Conclui ainda que a oralidade é muito rica, não podendo ser banalizada em razão da língua escrita, colocando que o PNP não é inferior ao PP, mas diferente, não podendo ser alvo de preconceito linguístico.

8 comentários:

  1. Excelente a sua analise,cada vez mais eu adoro a sociolinguistica...

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    1. Que bom!! Também adoro! Obrigada, Clenilda!! :)

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  2. Olá, Priscila, gostei muito do resumo sobre A língua de Eulália, foi de inteira ajuda a minha compreensão. Obrigada!

    Iara ( Estudante de letras/inglês).

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  3. Muito bom seu resumo, parabéns! Li o livro e acho que vc sintetizou muito bem as ideias.

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  4. Li o livro e penso que seu resumo ficou muito bom. Parabéns!

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